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Prisão preventiva: quanto tempo dura e como pedir a revogação
A prisão preventiva só pode ser decretada quando há prova do crime, indício suficiente de autoria e perigo concreto gerado pela liberdade da pessoa e, em regra, apenas em crimes dolosos com pena máxima acima de 4 anos. Não tem prazo fixo, mas o juiz é obrigado a revisar a necessidade a cada 90 dias. Pode ser revogada a qualquer momento.
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O que é a prisão preventiva
É a prisão decretada por um juiz, durante a investigação ou o processo, antes de qualquer condenação definitiva. Ela não é pena: a lei proíbe expressamente usá-la para antecipar o cumprimento da pena (art. 313, §2º). Ela existe para proteger o processo ou a sociedade em situações concretas de risco. Sem esse risco, demonstrado com fatos, ela é ilegal.
O que diz a lei
«A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria e de perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado.»
«A decisão que decretar a prisão preventiva deve ser motivada e fundamentada em receio de perigo e existência concreta de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a aplicação da medida adotada.»
Só o juiz decreta, e apenas a pedido do Ministério Público, do querelante ou do assistente, ou por representação do delegado (art. 311). O juiz não pode decretá-la por conta própria. E a decisão precisa ser individualizada: a lei considera não fundamentada a decisão que apenas repete a lei, usa conceitos vagos ou copia outra decisão (art. 315, §2º).
Quanto tempo alguém pode ficar preso preventivamente?
Não existe um número na lei. A preventiva dura enquanto durar o motivo concreto que a justificou e pode terminar a qualquer momento: o juiz revoga a prisão quando verifica que falta motivo para que ela subsista, e pode decretá-la de novo se surgirem razões (art. 316). O que a lei impõe é um controle periódico:
O que diz a lei
«Decretada a prisão preventiva, deverá o órgão emissor da decisão revisar a necessidade de sua manutenção a cada 90 (noventa) dias, mediante decisão fundamentada, de ofício, sob pena de tornar a prisão ilegal.»
O Supremo decidiu que passar dos 90 dias sem revisão não solta o preso automaticamente: o juiz tem de ser provocado a reavaliar se os fundamentos continuam legais e atuais (ADIs 6.581 e 6.582, 2022). Essa revisão periódica vale até o julgamento do processo pelo tribunal de segundo grau. Na prática, a defesa acompanha o calendário e cobra a revisão quando ela vence.
O segundo limite é o excesso de prazo. Quando o processo se arrasta sem que a defesa tenha causado a demora, a prisão perde a razão de ser, e cabe pedir a soltura, inclusive por habeas corpus. Os parâmetros são o prazo de 60 dias para a audiência de instrução (art. 400) e a duração razoável do processo (CF, art. 5º, LXXVIII). Os tribunais não fazem conta de dias: olham a complexidade do caso, o número de réus e quem deu causa ao atraso. Demora provocada pela defesa não serve de argumento (Súmula 64 do STJ), e, encerrada a instrução, o STJ em regra considera superada a alegação (Súmula 52), salvo demora fora do razoável depois disso.
Em quais crimes ela cabe
- Crimes dolosos com pena máxima superior a 4 anos (art. 313, I).
- Quando a pessoa já foi condenada por outro crime doloso, com decisão definitiva, respeitado o prazo de 5 anos da reincidência (art. 313, II).
- Crimes com violência doméstica e familiar contra mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com deficiência, para garantir medidas protetivas (art. 313, III).
- Crimes cometidos por integrante de organização criminosa ultraviolenta, grupo paramilitar ou milícia privada, nos termos da lei do marco legal do crime organizado (art. 313, V, incluído pela Lei 15.358/2026).
- Em qualquer caso, por descumprimento de medida cautelar imposta anteriormente (art. 312, §1º).
Fora dessas hipóteses, não cabe preventiva, e o juiz deve aplicar, se algo for necessário, uma medida cautelar diversa (art. 319): comparecimento periódico, proibição de frequentar lugares ou de manter contato com pessoas, recolhimento noturno, suspensão de função, monitoração eletrônica, entre outras.
O que a defesa faz
Pedido de revogação ao próprio juiz
A preventiva é revogável a qualquer momento quando falta motivo para que subsista (art. 316). Fatos novos (emprego, endereço, saúde, o andamento do processo) sustentam o pedido.
Substituição por medidas cautelares
Mostrar que uma ou mais medidas do art. 319 bastam para o risco alegado. A prisão só se justifica quando elas são inadequadas ou insuficientes.
Prisão domiciliar quando a lei prevê
Maior de 80 anos, doente grave, responsável por criança até 6 anos ou pessoa com deficiência, gestante, mãe de criança até 12 anos ou pai único responsável (art. 318).
Habeas corpus no Tribunal de Justiça
Contra a decisão que decreta ou mantém a prisão sem fundamentação concreta, com pedido de liminar. Depois, se necessário, STJ e STF. Como funciona o habeas corpus.
Controle dos 90 dias e do excesso de prazo
Cobrar a revisão obrigatória e documentar a demora da instrução. A cada marco, novo pedido.
O que a família pode fazer
- Reunir e atualizar comprovantes de vínculo: residência, trabalho, família, estudo, tratamento de saúde. É o material dos pedidos de revogação.
- Laudos médicos do preso ou de dependentes: abrem a porta da prisão domiciliar (art. 318, II, III e VI).
- Guardar toda intimação e decisão e enviar ao advogado no mesmo dia.
- Manter o endereço atualizado no processo: mudança sem comunicação é usada contra o preso.
O que não fazer
- Não procure a vítima ou testemunhas, nem peça a outros que procurem. Isso é o fundamento mais comum de "conveniência da instrução criminal".
- Não descumpra nenhuma medida cautelar já imposta: o descumprimento autoriza a preventiva por si só (art. 312, §1º).
- Não mude de cidade ou "desapareça" enquanto o processo corre: é lido como risco à aplicação da lei penal.
Perguntas frequentes
Prisão preventiva é uma condenação antecipada?
Não, e a lei proíbe que funcione assim (art. 313, §2º). O preso preventivo é presumido inocente e responde ao processo preso apenas enquanto houver risco concreto demonstrado. Quando o risco desaparece, a prisão deve cair.
Quanto tempo alguém pode ficar preso preventivamente?
Não há um número na lei. Há a obrigação de revisar a necessidade a cada 90 dias e o direito à duração razoável do processo. Se a instrução demora além do razoável sem culpa da defesa, cabe pedir a soltura por excesso de prazo, inclusive por habeas corpus.
A preventiva acaba sozinha depois de 90 dias?
Não. Os 90 dias são o prazo para o juiz revisar se a prisão ainda é necessária (art. 316, parágrafo único). Se a revisão não acontece, a prisão não cai automaticamente, segundo o Supremo, mas a defesa pede que o juiz reavalie e, se ele não o fizer, leva a omissão ao tribunal por habeas corpus.
Qual a diferença entre prisão preventiva e temporária?
A temporária só existe durante a investigação, tem prazo fixo (5 ou 30 dias, prorrogáveis uma vez) e vale apenas para os crimes listados na Lei 7.960/1989. A preventiva pode ser decretada na investigação ou no processo, não tem prazo fixo e exige os requisitos do art. 312. Veja a comparação completa.
O preso preventivo tem direito a visita e a trabalho?
Sim. A Lei de Execução Penal estende ao preso provisório, no que couber, os direitos do preso condenado (LEP, art. 42), inclusive visita de familiares em dias determinados (art. 41, X) e entrevista reservada com o advogado (art. 41, IX). Veja quem pode visitar.
Conteúdo informativo, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB. Não substitui a análise do caso concreto por advogado. A lei citada é a vigente na data da publicação; a redação dos artigos pode ser conferida no site do Planalto.
OAB/SP 492.350
Dr. Ricardo Rocha
Advogado criminalista em Ribeirão Preto, formado pelo Centro Universitário Moura Lacerda, com especialização em Tráfico de Drogas e Execução Penal. Vice-Presidente da Comissão de Direito Criminal e Política Criminal da OAB/SP em Ribeirão Preto. Atua em plantão 24 horas em Ribeirão Preto e nas comarcas da região.
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